Sexo e tabu

Minha mãe tem 85 anos e, cada vez mais, conta-me sobre o passado, falando das histórias de sua infância, dos poucos namoros, do casamento, dos seus sonhos e desejos realizados ou não. Interessante é que ela não se prende aos momentos mais difíceis; quando se refere a eles, é pelo aprendizado que trouxeram e de como foram superados. Considera que teve e tem uma vida feliz.

Mamis é uma pessoa pragmática, nada afeita aos arroubos emocionais. Segundo sua própria avaliação, diz que nunca se apaixonou de fato, que nunca se deixou levar pelos “instintos”, que sempre adotou atitude correta, quando a escolha dependia dela mesma. Muito severa consigo e, consequentemente, não menos severa com a conduta alheia.

Sou o oposto dela, como meus escritos já mostram. Ainda que eu tenha herdado a forma prática de encarar a vida, sou mais permissiva e vivo nas nuvens de forma nada etérea. Aliás, sou demais carnal. Uma pessoa intuitiva, espontânea, intensa e passional, que não se atém às convenções, que “se joga”, com moderação. (Se for possível de ser conciliado, é claro; senão, vai sem moderação.)

Não fui a filha que ela desejava, jamais. E também não fui eu mesma, enquanto me senti inadequada por não corresponder ao modelo proposto. Um tormento, para ambas.

Por que estou escrevendo sobre isto?

Porque escutei de mamis que sempre dei muito trabalho para ela.  Parece que todos os parentes concordam.  Menos eu.

Fui uma criança e adolescente bem comportada, tímida, afável, boa estudante, de bom trato. Muito reservada e melancólica, nada vaidosa, pouco feminina e um bocado feminista, sonhadora, idealista e com um senso de justiça e igualdade muito fortes, que não me permitiam aceitar determinações com as quais eu não concordava. Uma boa menina, que se tornou uma mulher responsável e independente.

Mas não foram esses atributos que me renderam o título de filha difícil. Foi o fato de eu ser muito “assanhada”, muito “fogosa”, desde a mais tenra infância, isto é, por gostar muito do sexo oposto… para o sexo . Mesmo quando nem sabia que existia sexo. E muito menos que se fazia sexo.

As mães sentem e pressentem. Para alguém com tanto autocontrole, tal qual minha mãe, como aceitar alguém tão, tão, tão, “voluptuosamente exuberante”? Ou, como o senso comum classifica, alguém tão sonso?

O olhar e o gesto dizem, o corpo sente e responde. As pessoas percebem, inclusive os pedófilos próximos…

A gente nasce assim, com esta impetuosidade à flor da pele… que vira uma inadequação torturante, muito útil para encher salas de analistas e consultórios psiquiátricos.

Sexualidade que é castrada socialmente.

Ou assassinada, pelo dono da vez.

 

Sobre o assunto, leiam também esta crônica maravilhosa de Stella Florence:

Onde você está em “Sobre ratos e homens”?

 

 

 

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