Vou assumir o meu nome:Ida Lenir

Sou inquieta por natureza, uma eterna insatisfeita.

A inquietude e a insatisfação nascem da e na rotina pela qual obstinadamente me empenho para tornar meu cotidiano de algum modo administrável. É como preservo minha sanidade.

Se estou insatisfeita, é porque está tudo previsível demais, sob controle, conquistado. Inicia-se, assim, o processo de buscar algo que me inspire, que me desafie.

Junto com a curiosidade e a necessidade do risco e da novidade, chegam o medo e a culpa. Medo da instabilidade e culpa por não querer mais com o mesmo entusiasmo o que ou quem eu tanto desejei.

Estou nesta fase agora. A querer o novo. De novo. Novamente. Mais uma vez.

Isto influencia minha relação com este blog, faz com que eu queira aproximá-lo do que sinto.  Mas não é recomendável mudar por qualquer motivo, ao meu bel prazer. Afinal, aqui é um espaço nosso, compartilhado entre mim, leitores e quem me acompanha. Como fazê-lo de forma definitiva?

Pensei… se o que sinto muda, o que desejo muda, o que tenho muda, o que não muda em mim? Meu nome, Ida Lenir.  A pessoa que sou, que fui e que ainda serei, estao todas atreladas a ele. Definitivamente.

Além disso, já faz algum tempo que alimento o desejo de estar à frente de meus escritos, sem máscaras. A despeitada que um dia fui (quase em tempo integral) e que se materializou no Diário de uma Mulher Despeitada, cumpriu o seu destino e não existe mais.

Este blog tem 6 anos. É uma criança que já sabe dizer o que quer. Quer ser Ida Lenir.

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Sexo e tabu

Minha mãe tem 85 anos e, cada vez mais, conta-me sobre o passado, falando das histórias de sua infância, dos poucos namoros, do casamento, dos seus sonhos e desejos realizados ou não. Interessante é que ela não se prende aos momentos mais difíceis; quando se refere a eles, é pelo aprendizado que trouxeram e de como foram superados. Considera que teve e tem uma vida feliz.

Mamis é uma pessoa pragmática, nada afeita aos arroubos emocionais. Segundo sua própria avaliação, diz que nunca se apaixonou de fato, que nunca se deixou levar pelos “instintos”, que sempre adotou atitude correta, quando a escolha dependia dela mesma. Muito severa consigo e, consequentemente, não menos severa com a conduta alheia.

Sou o oposto dela, como meus escritos já mostram. Ainda que eu tenha herdado a forma prática de encarar a vida, sou mais permissiva e vivo nas nuvens de forma nada etérea. Aliás, sou demais carnal. Uma pessoa intuitiva, espontânea, intensa e passional, que não se atém às convenções, que “se joga”, com moderação. (Se for possível de ser conciliado, é claro; senão, vai sem moderação.)

Não fui a filha que ela desejava, jamais. E também não fui eu mesma, enquanto me senti inadequada por não corresponder ao modelo proposto. Um tormento, para ambas.

Por que estou escrevendo sobre isto?

Porque escutei de mamis que sempre dei muito trabalho para ela.  Parece que todos os parentes concordam.  Menos eu.

Fui uma criança e adolescente bem comportada, tímida, afável, boa estudante, de bom trato. Muito reservada e melancólica, nada vaidosa, pouco feminina e um bocado feminista, sonhadora, idealista e com um senso de justiça e igualdade muito fortes, que não me permitiam aceitar determinações com as quais eu não concordava. Uma boa menina, que se tornou uma mulher responsável e independente.

Mas não foram esses atributos que me renderam o título de filha difícil. Foi o fato de eu ser muito “assanhada”, muito “fogosa”, desde a mais tenra infância, isto é, por gostar muito do sexo oposto… para o sexo . Mesmo quando nem sabia que existia sexo. E muito menos que se fazia sexo.

As mães sentem e pressentem. Para alguém com tanto autocontrole, tal qual minha mãe, como aceitar alguém tão, tão, tão, “voluptuosamente exuberante”? Ou, como o senso comum classifica, alguém tão sonso?

O olhar e o gesto dizem, o corpo sente e responde. As pessoas percebem, inclusive os pedófilos próximos…

A gente nasce assim, com esta impetuosidade à flor da pele… que vira uma inadequação torturante, muito útil para encher salas de analistas e consultórios psiquiátricos.

Sexualidade que é castrada socialmente.

Ou assassinada, pelo dono da vez.

 

Sobre o assunto, leiam também esta crônica maravilhosa de Stella Florence:

Onde você está em “Sobre ratos e homens”?

 

 

 

Quero o Black para mim!

Na verdade, quero um Chiron para mim, porque o personagem, assim denominado na sequência do filme  Moonlight,  corresponde àquele e àquilo que muito desejo, que mexe com minhas entranhas e me  faz suspirar.

O Chiron é alguém com vida interior intensa. Tímido, introspectivo, de poucos gestos e quase nenhuma palavra. Seu olhar diz tudo, com clareza  e  ingenuidade sedutora.

Nesse olhar, há medo, certeza, dúvida, docilidade, fúria, amor, covardia, insegurança, indecisão. Sentimentos e atitudes que parecem contraditórias e que coexistem na ação, no instante sentido, no momento vivido. Não somos, e Chiron não é, lineares e coerentes.

Talvez sejamos, na fração de segundo em que temos certeza de alguma coisa. Na maior parte do tempo, as pessoas vivem em dúvida, tendo que fazer escolhas em meio ao turbilhão de demandas e emoções, forçadas a decidir quase na base do “unidunitê”. Ou naquilo que causa menos desgaste, cujas consequências (supomos) serão menos prejudiciais.

É preciso escolher para viver. Não escolher já é uma escolha. Clichê verdadeiro.

O objetivo de Chiron não era ser feliz, era driblar o sofrimento, diminuir a dor num mar tempestuoso de perdas e faltas de toda ordem. Ele sabia que era um outsider, de um tipo que não sentia a necessidade de ser aceito. Queria paz. E, talvez, tornar-se invisível, se a invisibilidade lhe permitisse permanecer íntegro.

Ser o que se é, não nos é permitido, de todo. Nem na ficção. Por isso que, entre o suicídio e o assassinato, Chiron escolheu criar um outro eu. Não matando a si mesmo, metaforicamente, ou criando um personagem, ou mesmo produzindo uma personalidade doentia, mas um eu que potencializou as características pessoais estratégicas (já existentes), e que mascararam aquilo que o tornava pequeno e frágil no seu contexto social.

Nessa composição meticulosa, vestiu-se de proteções físicas e atitudinais que o tornaram respeitado e o deixaram confortável para seguir adiante. Um seguir anestesiado, reduzido, mas que permitiu a vida continuar seu curso.

No entanto, o anestésico tem um tempo certo de eficácia. Uma hora o efeito passa e tudo o que foi reprimido emerge como a larva no despertar de um vulcão adormecido, como paixão adolescente desenfreada, como a explosão do grito que sufoca a garganta e nos impede de respirar. Ou apenas no permitir-se o abraço amoroso e protetor de quem nos recebe como somos. Sem julgamento e sem cobrança.

Um filme apenas? Não para mim. Eu sou Chiron. Reconheço-me nos três momentos desse personagem. Creio que todos nos identificamos com ele, de alguma forma.

Também já aconcheguei alguém assim. Que tinha a mesma docilidade,  a mesma intensidade e a mesma fúria de amar.

Sorte minha.

 

8 de março, dia de luta

O Dia da Mulher não terá mais sentido  de existir, apenas quando “mulher” deixar de ser um adjetivo e for um substantivo.

Os filologistas e leigos amantes da língua pátria devem estar de cabelos em pé. Afinal, mulher é substantivo feminino singular, como classifica a santa madre gramática.

Entretanto, não é bem assim no dia a dia da vida em sociedade. À mulher, são atribuídos papéis não muito valorizados, ainda que essenciais para a reprodução e produção social. É considerada, na verdade, um ser de segunda categoria, cuja forma de “ser” e de “estar” é determinada por regras de uma sociedade machista e misógina, em sua essência.

Para sermos valorizadas, sermos (diz que!) tratadas como iguais, precisamos agir como os homens. Priorizar a racionalidade, a hierarquia, a praticidade, atributos considerados masculinos, assim como muitas outras qualidades que nutrem um sistema econômico que prima pela desigualdade e competição. Eles são a referência, o ideal do que é considerado ser bem sucedida.

Porém, temos que preservar as características ditas femininas e continuar dando conta do mundo doméstico, atribuição inescapável. Agora, claro, com a gentil e condescendente “ajuda” do companheiro.

Sei que este discurso está batido. Repetitivo. Sem nenhuma novidade. Pouco criativo. Cansativo, enfim.

Uma pena que seja a realidade de ontem e de hoje, ainda. Jornada tripla, violência doméstica e sexual, desvalorização profissional, desigualdade salarial, cerceamento da sexualidade, ditadura da beleza… convivemos com tudo isso, quase como se fosse natural. Construção social mascarada de determinação biológica.

Já vivi o suficiente para reconhecer que o  mundo da minha juventude não é o mesmo mundo de meus filhos, netos e bisnetos. Houve mudanças, mais reconhecimento de direitos das minorias, maior liberdade feminina.

Mas a mudança ocorrida não foi gentilmente dada. Todo direito conquistado veio por meio  de sofrimento, de mortes, de sangue derramado, de labor e muitas lágrimas.

É resultado de luta. Da luta explícita dos movimentos, passeatas, tratados e discursos; e da luta silenciosa, em cada gesto, em cada palavra, em cada atitude de cada mulher no cotidiano.

Por isso, o dia de hoje não é dia de festa, de regojizo. É dia de reflexão e de afirmação do direito de ser pessoa, tratada e considerada como tal.

Não viverei o suficiente para ser tratada sem adjetivações sexistas.

Tomara que eu esteja errada.

 

 

 

Tanto querer

,

 

 

Quero que chegues sem palavras.

E, ao chegar…

Quero  desejo no teu olhar,

Quero aconchego no teu abraço,

Quero  sede na tua boca pelo meu beijo,

Quero  fome nas tuas mãos, ao descerem ávidas por minhas costas, por minhas ancas, pelos caminhos que conheces tão bem!

Quero o teu corpo suado,  teus sussurros, teus gemidos.

Quero que te dissolvas em mim, num gozo compartilhado.

Depois,

Quero que te vás.

Para vir, de novo, novamente, repetidamente.

Quero-te muito, meu menino!

Mas de que adianta tanto querer,

Se já não me queres mais?

 

Cantada infeliz

16807399_10202761769763506_634404310978368908_nDepois de um longo e chuvoso inverno, hoje fez uma tarde linda, com direito a por do sol e visita de garça. Momento mágico e gratuito em frente à baía do Guajará.

Com o espírito elevado, aceitei o convite de uma amiga para tomar vinho e conversar sobre a vida. Lá fui eu, pensando num lugar com boa música, ambiente agradável, gente distinta e discreta e comida de qualidade.

O bate-papo  no bistrô, com vinho e petiscos virou uma incursão antropológica num baile da terceira idade, ao som de músicas  “da saudade”, regadas a água mineral e batata frita.

Quando lá chegamos, o salão estava lotado de pessoas dançando, embaladas por um pout-pourri de rock dos anos 70.

Afora os dançarinos pagos, a idade média dos frequentadores era de uns 60 anos, muita gente  animada e que já se conhecia. Gado novo, éramos só nós 3. Quase as irmãs Cajazeiras do século XXI, chegando ao pedaço.

Um senhor distinto, visivelmente, o “dono da rua”, fez as honras da casa e nos orientou sobre os costumes locais. Um outro, muito gentil, ofereceu para compartilharmos sua mesa, visto que não havia mais nenhuma disponível.

Aceitamos, claro, e logo minhas amigas foram chamadas para dançar, fato que se repetiu várias vezes. Fizeram sucesso, essas moças! O que causou olhares de hostilidade das habitués do baile.

Como de praxe, amarguei meu indefectível chá de cadeira a maior parte do tempo, o que me permitiu não só observar, mas também escutar as abordagens de sedução dos Don Juans para com minhas amigas.

Teve “de um tudo”. Convite para carona,  acochos, mão quase no bumbum, danças meio exóticas, autoelogios. Todos eles se achavam, sentiam-se o presente dos deuses para as mulheres recém-chegadas. Era óbvio (para eles) que era sorte nos terem concedido uma dança. Deveríamos, creio, ficar lisonjeadas.

Um deles, realmente, mostrou-se inspirado. Depois dos requebros sensuais nas pistas, suado e esbaforido, aboletou-se ao lado da dama desejada e insistia para que ela falasse com alguém no celular dele.

Ouvi, com certeza: carreta, caçamba, Semob, Marabá e “fala aqui com ele”. Nada fazia sentido e me pareceu que a moça também  não entendia nada. Começamos a ficar assustadas, porque, quando mais ela se esquivava, mas o homem ficava ansioso e repetia “caçambas e carretas”.

Por sorte, o gentil dono da mesa veio salvá-la do incômodo e o apaixonado afoito se aquietou.

Pouco depois fiquei sabendo que se tratava apenas de uma cantada infeliz. A estratégia do marabaense foi apresentar suas posses – uma carreta e três caçambas, para provar que era um bom partido. Quem sabe queria até lavá-la para a boleia do caminhão, que estava parado em frente à sede, para selar a noite de domingo. Um rodomotel. Simples assim.

Afe! Se eu tivesse ido tomar o vinho, não teria vivido esta edificante experiência.

Acho que vou apresentar minha conta inativa do FGTS como credencial na minha próxima paquera. Talvez eu tenha mais sucesso.

Você é um sedutor… cuidado com o que diz

Preciso te pedir uma coisa, Caio. Ontem eu voltei a casa em que cresci, toquei em seus muros e no portão de ferro na tentativa de acessar a menina alegre que um dia eu fui, muito antes de te conhecer. Não consegui. Foi então que me dei conta de que precisava te fazer esse pedido. […]

via Carta a um sedutor em série. — Stella Florence

10 dias sem BUP

Na verdade, são 5 anos sem Bup!

Relendo este texto, percebi que posso ter passado uma impressão de que é preciso se livrar do medicamento a qualquer custo. Não é isso não.

Esse tipo de remédio é muito importante para dar suporte em momentos de fragilidade emocional e/ou desequilíbrio químico cerebral.

O acompanhamento médico é indispensável, sempre. E compreender que o primeiro passo na conquista de tudo é o querer. Não há droga no mundo capaz de nos dar o que não somos capazes de construir por nós mesmos.

Era isso que tinha para falar.

Blog da Ida Lenir

Eu, sempre tão organizada e previdente, fui arrumar minha mala exatamente meia hora antes de ir para a rodoviária. Sabe-se que, na minha idade, além de roupas, calçados, cosméticos e artigos de higiene pessoal, tem-se que carregar uma penca de remédios. No meu caso, o remedinho da alegria diurna, do bom sono da noite e os hormônios da tireoide. Vou ter que acrescentar mais alguns, porque os triglicerídeos e colesterol ruim estão apaixonados por mim. É minha eterna atração por cafajestes!

Sim, a mala… Quando fui organizar os comprimidos, vi que a caixa do BUP *estava vazia. Pirei o cabeção. Já quase surtando, fui às pressas ao hospital mais próximo para tentar uma receita. A emergência estava fechada, pois o médico não havia comparecido ao plantão de domingo. Sem alternativa, respirei fundo e disse para mim mesma: “uma ótima oportunidade de você começar a caminhar apenas com suas pernas, sem muletas”. Afinal, já…

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