Vou assumir o meu nome:Ida Lenir

Sou inquieta por natureza, uma eterna insatisfeita.

A inquietude e a insatisfação nascem da e na rotina pela qual obstinadamente me empenho para tornar meu cotidiano de algum modo administrável. É como preservo minha sanidade.

Se estou insatisfeita, é porque está tudo previsível demais, sob controle, conquistado. Inicia-se, assim, o processo de buscar algo que me inspire, que me desafie.

Junto com a curiosidade e a necessidade do risco e da novidade, chegam o medo e a culpa. Medo da instabilidade e culpa por não querer mais com o mesmo entusiasmo o que ou quem eu tanto desejei.

Estou nesta fase agora. A querer o novo. De novo. Novamente. Mais uma vez.

Isto influencia minha relação com este blog, faz com que eu queira aproximá-lo do que sinto.  Mas não é recomendável mudar por qualquer motivo, ao meu bel prazer. Afinal, aqui é um espaço nosso, compartilhado entre mim, leitores e quem me acompanha. Como fazê-lo de forma definitiva?

Pensei… se o que sinto muda, o que desejo muda, o que tenho muda, o que não muda em mim? Meu nome, Ida Lenir.  A pessoa que sou, que fui e que ainda serei, estao todas atreladas a ele. Definitivamente.

Além disso, já faz algum tempo que alimento o desejo de estar à frente de meus escritos, sem máscaras. A despeitada que um dia fui (quase em tempo integral) e que se materializou no Diário de uma Mulher Despeitada, cumpriu o seu destino e não existe mais.

Este blog tem 6 anos. É uma criança que já sabe dizer o que quer. Quer ser Ida Lenir.

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A vaca e o segredo da vida

“Cortella, costumava dizer aos filhos quando crianças:
– Quando completarem 12 anos contarei o segredo da vida a vocês.

Quando o mais velho completou 12 anos, acordou o pai todo ansioso para saber o segredo da vida. O pai disse, contarei, mas, você não poderá revelar aos seus irmãos.
Eis o segredo:
– Vaca não dá leite.
🤔-Hã?
– Vaca não dá leite. Você tem de tirar.

Esse é o segredo da vida. Vaca, búfala,cabra, não dão leite. Ou você tira ou não tem leite.
Existe uma geração que acha que vaca dá leite, ela acha que as coisas são automáticas. Eu quero, eu peço, eu ganho.
A felicidade resulta do esforço. A ausência de esforço gera frustração.”

Mário Sérgio Cortella, em  Basta! Reflexões urgentes para pais e mães.

RESENHA DA IDA LENIR SOBRE A FÁBULA (DA VACA)

As pessoas vivem hoje em dia sem nenhum estofo emocional para lidar com a frustração. O resultado é a  depressão, seguida por suas manifestações diversas, as várias ias que se tornaram doenças do século.

Para mim, a origem principal desse mal é a crença moderna de que o mundo está a serviço do eu individual, de que há o direito natural de cada um ter todos os seus desejos satisfeitos e de ser feliz. De preferência, sem ou com pouco trabalho.

A fonte inicial de plena satisfação sem esforço é o ventre materno, que passa a se reproduzir nos pais e em todos os demais que cercam a criatura   A contrapartida pessoal para construir a própria felicidade é vista como enfadonha, cobrança excessiva e cerceamento das vontades e instintos que devem ser satisfeitos  agora.

Todo empenho é visto como condescendência de si para o outro. As birras e maus comportamentos infantis são tolerados e até motivo de orgulho dos “responsáveis”. Diz-que é personalidade! Quando o serzinho responde de forma adequada às normas sociais, a surpresa é seguida de aplausos e muita festa!

Já na escola, o bom desempenho é motivo de barganha, concessão feita pela cria para fazer jus a um presente. Cumprir um dever se torna ato digno de recompensas. Os meninxs não podem se ocupar de outra coisa na vida. Ajudar em casa?  Mas quando já! Vai atrapalhar os estudos. Crianças, jovens e até adultos não partilham do trabalho que torna o ambiente e a própria vida agradável.

Não é difícil de entender porque crescem como se a comida, a casa limpa, os passeios, as viagens, a roupa que veste e tudo que o trabalho produz e compra são “naturais”, caem do céu. Aparecem do nada… e as pessoas (especialmente eles) só usufruem. 

Os pais… os “psicologismos” de toda ordem levam a mil cobranças para quem, muitas vezes, matam-se para dar aos pimpolhos (hoje em dia, até os 40 anos) o conforto e a boa vida que eles  têm. Cadê a gratidão, o reconhecimento, a responsabilidade para além do discurso?

A prole é inteligente, fala bem, tem muitas certezas. Alguns, aproveitam e fazem boa formação, falam outros idiomas.  Para quê? Para vaidade já que nada é colocado em atividade. Não só não assumem suas vidas, como transferem para outrem as consequências de seus atos. Qualquer problema e lá estão na barra da saia da mãe.

Há pais que tratam os filhos como se fossem bebês eternos, bibelôs ou bonecos, em que a vida se resume no cuidado e em suprir a necessidade dos tiranos. Então, qualquer frustração passa a ser motivo de todas as mazelas, surtos e ações inadequadas. Não viram o caso da  Suzane  Von Richthofen ?

Nem todos matam os pais como Suzane, mas muitos filhos se tornam verdadeiros vampiros,  sugando-os com o egoísmo e exploração ad infinitum pela pseudo culpa deles de tê-los posto no mundo. Nem nunca reconhecem o que foi feito em prol de seu bem-estar.

Parece tragédia grega. Não é só grega,  é uma tragédia mundial. Pode até parecer que surtei… infelizmente, deparo-me com coisas do tipo com mais frequência do que gostaria.

E tudo porque não ensinamos que para beber leite é preciso tirar o leite da vaca. Ou pagar para alguém tirar…

A não ser que a vaca dê de mamar a vida toda. Neste caso, a mãe bovina não vai deixar o bezerro fazer o que quizer no curral…

Eis a diferença!

(e a moral da história)

 

Frágil, simplesmente

Sentada na “minha” cadeira de balanço, olhava desolada meus sapatos esparramados pelo chão. Pela milionésima vez, a sapateira de plástico havia desmontado, apesar do super bonder que coloquei nos engates, na vez anterior em que ela foi ao chão. A cola que cola tudo colou meus dedos, mas não colou a dita cuja. 80 reais jogados fora.

Se fossem só esses 80 reais… Tenho me desgastado bastante com descumprimentos variados. Foi com o eletricista, que não concluiu o serviço pago;  com a entrega da minha sonhada estante, cujo marceneiro me foi altamente recomendado e “me deu” 10% de desconto pelo pagamento antecipado, mas que me entregou metade do produto e sem a qualidade acertada; com os trabalhos de ghost writer que  fiz sem perceber e nada falei quando descobri; com o cargo a que me candidatei e para o qual fui eleita sem ter saúde para cumprir a missão a contento.

Há muitas outras situações de conteúdo afetivo em que tenho também assumido compromissos, tomado as dores de outrem ou feito concessões desnecessárias. Estas me exigem resiliência gandhiana e um desapego a la Madre Tereza de Calcutá.

Não vem ao caso torná-las públicas aqui, basta dizer que o compromisso e o investimento de minha parte tem sido muito maior do que da parte assistida. Se se tratasse de uma carteira de investimentos, diria que tem havido pouco ou nenhum retorno para esta pessoa que vos fala.

Esses envolvimentos não refletem a postura de investidora conservadora que sou, nem a cautela com que minhas ações se revestem, normalmente. Embora em nenhum deles eu tenha sido, de fato, ludibriada, abri a guarda sem cumprir os trâmites legais, mesmo quando intuía que não deveria fazê-lo.

Não sei se é o caso de parar de dar murro em ponta de faca e desistir. Tenho me colocado em situações com evidentes prognósticos negativos. Não é mais caso de risco calculado, nem mesmo de jogar no escuro, é quase uma necessidade de brincar com fogo estando ensopada de gasolina.

Bummm!

Tudo isso porque minha sapateira me deixou na mão.

Acho que estou lidando melhor com as contingências da vida.

 

Nota: cada dia que passa, mais acredito na atração dos pensamentos. Vi, há pouco, o vídeo abaixo, que tem tudo a ver com o que escrevi.

 

 

O que eu sou e como me vêem

Este post iria se chamar Preliminares e estava “na gaveta” desde março deste ano. Nessa época, estava meio perplexa com as abordagens masculinas e com as estratégias de sedução dos meus pretendentes à ficante. Questionava-me,  especialmente, sobre qual imagem eu passava (e passo) para as pessoas ao meu redor.

Desisti de entender porque minha plateia ( ou séquito?) é tão heterogênea que não identifiquei pontos em comum entre os membros (!): idade, etnia,  grau de instrução, características físicas e formas de aproximação muito diversas e muito, muito…entendiantes. O único aspecto similar é que nenhum deles pertencia ao universo dançante.

Sei que não faço o gênero boazuda, gostosa, não assedio, e muito menos bato com a bunda no chão. Sou um mulher grande, para os padrões paraenses, gordinha, séria,  calma, bonita, educada, de uma elegância discreta, muito mais para simpática do que para sedutora. Um modo de vestir meio jovial demais para a estação atual da minha vida.

Nos bailes que frequento, não sou aquela que os homens se achegam para tirar para dançar. Se não forem os amigos, bem amigos, posso ficar a noite inteira sentada. Também há os convites de cortesia de professores, bolsistas ou potenciais contratantes, cujas aproximações se devem às questões profissionais. Todas elas dentro do limite da gentileza, porque não compro companhia, nem me coloco como produto à venda, quando se trata das artes de dançar. Muita gente pode ser usada e se machucar. Tenho clareza e me afasto desse tipo de situação.

Mas convites de homem para mulher, seja pelos meus encantos femininos, seja pela minha (in)habilidade como dançarina, esses ainda não aconteceram, desde que comecei a fazer dança de salão e ir para bailes e casas noturnas.

Ai, ai.. Porque toda essa lamentação de pessoa invisível, socialmente?

Somente reflexões sobre a recente descoberta de que a imagem que as pessoas têm de mim não corresponde à descrição que fiz no terceiro parágrafo acima.

Isto começa “lá em casa”. Clara, minha quinta irmã, aprendeu a fazer gifs na aula de inglês e  resolveu curtir com a cara dos irmãos, construindo os nossos e ressaltando  as características mais marcantes de cada um.

O meu foi de uma coroa assanhada fazendo striptease.  Ficou uma graça, euzinha, tirando a roupa, toda sensual! Uma pena que o wordpress não permita compartilhar esse tipo de arquivo, por aqui…

Já ia mesmo tratar da Janela de Johari, uma técnica de autoconhecimento, durante a palestra da APDANS (Associação Paraense de Dança de Salão) que vai acontecer no final de mês.

Acho que preciso  usá-la antes para me reciclar ao meu respeito. 😉

 

 

Preciso falar sobre a cura gay

Não é oportunismo utilizar este tema como título do post. Não sou afeita a essas técnicas de obter leitores, mesmo querendo muito que meus textos alcancem mais pessoas sensíveis que gostam de uma boa conversa.

Na verdade, a polêmica da cura gay tem me levado a muitos momentos de reflexão sobre a condição feminina. Naturalizações do tipo me remetem à máxima elaborada por Simone de Beauvoir, de que não se nasce mulher, torna-se mulher.

O que entendo desta afirmação é que o sentido dado ao biológico, “natural”, é construído pelo indivíduo a partir do contexto sociocultural em que está inserido. A percepção resulta desse caldeirão de significados que compartilhamos; não é dada, é produzida e reproduzida pelas linguagens.

Questiono o porquê de as pessoas acharem que a cura gay é possível. Elas entendem como escolha, de que eu decido onde depositar meu desejo, tal qual escolher entre Coca-Cola e Pepsi. Mas essas mesmas pessoas afirmam que existe o “instinto” materno, que é inerente à condição da mulher. Fica bem claro que se dá significado ao que vê a partir das experiências pregressas, àquilo que nos foi apresentado como verdade. Tem gente que esquece que a massa cinzenta tem que ser usada para pensar…

Se as várias formas de sexualidade fossem compreendidas como manifestações naturais do ser humano, ninguém acharia que fosse passível de ser radicalmente mudada por meio de intervenções terapêuticas.

O preconceito acontece em função de alguns tabus sociais incômodos e pouco comentados nas famílias que envolvem a sexualidade, como o incesto (cujas restrições variam muito entre as culturas e cujo assunto exigiria laudas), o sexo com crianças, com animais, e outras formas mais bizarras de exercê-la.

Nestes casos, entendo que há, pelo menos, dois aspectos a serem considerados. O primeiro se refere à capacidade do outro consentir, aceitar e participar do ato em igualdade de condições e fruição.  O segundo trata da questão moral.

As crianças tem sexualidade; somos, os humanos, seres também sexuais.  Absolutamente saudável. Mas a criança não tem maturidade nem biológica, nem psíquica, nem social  para vivenciar a sua sexualidade com um adulto.

(Daí vem um idiota e afirma que, se dizem que a homossexualidade é natural,  por analogia, a pedofilia também deve ser.)

Sim,  o desejo é intrínseco ao ser.  Como o desejo de matar do psicopata é genético. Porém, a consumação desse tipo de desejo não acontece sem destruir o outro, sem sacrificá-lo, sem impingir-lhe dor.  A pessoa que deseja, então, tem que conter-se, ser tratada quimicamente, e, se isto não resolver, ser apartada do convívio social. Seja ele (ou ela) hetero, homo ou pansexual.

Também não há discernimento nos animais para consentirem o sexo com um humano. Acho que só os humanos subjugam outra espécie para o sexo… não sei… Sei de homens que iniciaram sua vida sexual com galinhas (que morrem, coitadas), cabras, cadelas, éguas, jumentas ou qualquer ser vivo que tenha um orifício.  Vira até piada, motivo de graça… eu não acho. Acho primitivo, grotesco,  bárbaro. Mas tem gente que ainda “se resolve” assim.

Chegamos à moral e aos tradicionais bons costumes. Não há uma moral única da humanidade. A moral não é dada, é construída pelos grupos, pelos povos.  O conteúdo moral mostra o grau de evolução de uma sociedade. Por isso que, quanto menos restritiva, quanto mais acolhe a diversidade, quanto mais ética, mais abrangente e inclusiva será. E costumes bons, para ser sucinta, são aqueles que ampliam o bem estar do maior número de pessoas e conduzem ao refinamento individual e coletivo.

Portanto, a homossexualidade não é um atentado nem à moral, nem aos bons costumes. As pessoas não são e nem se tornam melhores ou piores ao fazerem sexo consentido só com homens, como homens e mulheres, ou só mulheres adultos (as). Não é algo que interfira no caráter, na dignidade, na capacidade cognitiva, na sensibilidade, na inteligência, etc.

Por fim, a causa deste texto, a condição da mulher. No que se refere à sexualidade, há muito não nos é permitido vivê-la saudavelmente, com autonomia. Mulheres de minha geração foram obrigadas a casar virgens. Masturbação feminina não era sequer comentada, nem nos lares, nem entre as meninas, moças ou senhoras. Sentir desejo não era coisa de moça de família. Toda manifestação feminina de sexualidade era execrada. Antes do casamento.

Daí chegava o grande dia da moça donzela que se orgulhava de se manter casta e de não ter permitido sequer que o noivo chegasse perto dos seios, que dirá dos genitais… desejo já amordaçado e até esquecido. A noite de nupcias era (quase!) um estupro. E os atos posteriores feitos para a satisfação do marido, sexualidade vivida em função dele.

Não passei por isto. Casei grávida aos 16 anos. Tive a oportunidade (e sorte) de fazer sexo com um namorado que eu amava e desejava. Não vou dizer que não senti culpa, medo e desprezo por mim mesma por agir assim. Seria mentira. Nada foi fácil, mas passei por menos tempo de contenção, de restrição e tive a chance de uma trajetória um pouco diferente, com sexo de qualidade. Tive também a sorte separar, conhecer outros homens, de mandar meu superego calar a boca e me deixar experimentar o que de bom e ruim existe nessa seara.

A forma como vivi minha heterossexualidade não foi muito convencional para a minha época.  Ainda não é hoje. Apesar (ou sobretudo) pelas muitas terapias realizadas para me ajustar ao mundo e não dar murro em ponta de faca.

Depois de muitas terapeutas e psiquiatras e devorar livros e livros sobre o assunto, compreendi que o que se viveu fica marcado para sempre, a ferro e fogo, na memória, na atitude, no comportamento, na alma. Aparecem, principalmente, quando das reações instintivas. Não há cura para o que se é.

A autoaceitação é o caminho para ter paz. Mas não há vida plena sem o reconhecimento e aceitação social de ser cidadão e cidadã de primeira classe, sem senões.

E isto ainda falta para homens e mulheres gays e para as mulheres hetero.

 

 

 

 

Silenciar para estar presente

Estou fazendo um curso inicial de meditação, na linha do mindfulness. O curso é feito com práticas, em grupo, e tem me permitido viver um tempo fora das mídias e, principalmente, horas de silêncio para estar no tempo presente por meio do mergulho no interior de mim. A mente cala e o corpo é.

Não é fácil silenciar para alguém que vive no mundo da lua, que dispersa a atenção a todo momento, a ponto,  inclusive, de não saber qual foi a pílula que acabou de engolir.

Em silêncio, eu nunca havia estado por muito tempo. Este muito, no caso, quer dizer 30 segundos… Raras são as situações que conseguiam segurar a minha atenção; geralmente em se tratando de sociologia ou de sexo, não necessariamente nesta ordem.

Já fui alguém de viver muito no passado, revivendo deleites ou remoendo situações. As mil e uma terapias por que passei (e paguei) me levaram a fazer as pazes com minhas escolhas, fato não  suficiente para me manter aqui no presente. Como ansiosa que sou, já tinha um outro pé no futuro. Só fiz mudar meu foco para lá, no adiante idealizado, desejado ou temido.

Se viver no passado deprime, viver no  futuro angustia. Por isso, nos meus devaneios de menina, queria ter uma bola de cristal, o pó de pirlimpimpim, ou, melhor, ser  a  própria Feiticeira (A gênio Jeannie  não me apetecia, porque tinha dono. Minha ingenuidade não me permitia ver que Samantha era escrava do irascível marido.)  Tudo para controlar o presente, para alcançar o futuro agora.

O que eu sabia era que esse diálogo permanente comigo mesma, que tanto me entretinha e me me mantinha alheia do meu derredor, afastava-me do agora. Uma fuga permanente das circunstâncias. Era meio um autômato, uma dicotomia ambulante, um zumbi. Cumpria minhas funções e obrigações com a cabeça acolá.

Coisa de poeta. De pateta. De lesa.

Não vou entrar no mérito dos motivos que me levaram a gostar mais de estar  lá atrás ou ali adiante. Daria um livro e não mudaria coisa nenhuma. O importante é que descobri as estratégias que uso para escapar do presente.

A principal delas é ser um ser falante. Preciso falar sempre,  com o outro ou comigo mesma.  Manter-me falando, analisando, argumentando, ponderando, aconselhando. Haja gerúndio!

O silêncio me apavora. Porque, se eu ficar calada, podem pensar que sou mal educada ou achar que estou deprimida, com problemas. Preciso ser simpática, preciso deixar o ambiente agradável, preciso ser cortês: não devo deixar o outro sem contato, sem resposta. Mesmo quando estou em grupo, sou eu quem quebra o silêncio constrangedor dos inícios.

Mas o falar também me apavora. Tenho que fazer um esforço muito grande para me manifestar em situações públicas, mesmo nas conversas a dois. Fico tão preocupada com o conteúdo da minha fala, que minha mente trava uma árdua batalha para descobrir o que dizer de forma “inteligente”, pertinente, eficaz. As ideias fogem, dá-me até taquicardia. Uma preocupação constante com a performance. Com a minha performance.

Fui uma avaliadora cruel dos meus feitos e desfeitos.

Agora descubro que é no silêncio que me acho. Não o silêncio absoluto do tudo, como aquele que se encontra na morte que acredito.  Mas o silêncio da mente, daquela que controla, avalia e determina tudo, daquela que interfere no sentir, que menospreza a necessidade do corpo, que manipula a vontade ao seu bel prazer e interesse.

É hora de ouvir a mim, de fato, sem críticas, sem broncas, sem ironia, sem desprezo. Apenas ser.

Para ter clareza do que quero, do que posso, do que devo.

Por escolha.

Nota: Esta minha busca começou de uma maneira inusitada. Queria viver minha sexualidade de forma plena, sem necessariamente ter que me prender a relacionamentos monogâmicos ou formais. Muitos foram os entraves para colocar em prática minha meta. Li o que pude a respeito do assunto,  procurei  especialistas , experimentei relações alternativas, conversei sobre o assunto com amigos e terapeutas. O que eu aprendi? Que a solução que eu buscava não estava em mudar a estrutura social,  ou a recorrer aos outros do passado, do presente, ou do futuro. Porque controle social continuará existindo e as ações dos outros  também. Apenas eu é que preciso aprender a me relacionar saudavelmente com ambos e, para isto, preciso me conhecer, lidar com meus limites, respeitar os meus valores, mudar a mim, com generosidade, mas sem leniência.

Não sei onde vou chegar com essa minha busca. Sei que estou vivendo, calma e plenamente, as prioridades de cada momento da caminhada da vida que me resta.

 

 

Conversa entre ex

O WhatsApp permite que que as pessoas conversem.

Agora, em algum lugar do mundo…

[19:47, 21/8/2017] Ex-mulher: Mandei hoje o quadro pra portuguesa.
[19:47, 21/8/2017] : Nora enrolou muito. Fui eu mesma☹
[19:47, 21/8/2017] : 105 reais. Caro este trem.

[19:48, 21/8/2017]  Ex-marido: Vc não mandou foto do registro. No dia 27 só encontrei isso aí.

[19:49, 21/8/2017] Ex-mulher: Ai ai
[19:49, 21/8/2017] : Parece praga. Por isso não achei a foto.

[19:50, 21/8/2017] Ex-marido: Não faz mal.
Há de chegar.
[19:50, 21/8/2017] : As caravelas levavam 40 dias.
[19:50, 21/8/2017] : E ninguém reclamava.

[19:51, 21/8/2017]  Ex-mulher: A outra chegou em 10 dias.

[19:51, 21/8/2017] Ex-marido: Num esquenta.


[21:43, 21/8/2017] Ex-marido: Limpei a casa
Quero meu ovinho!

[21:44, 21/8/2017] Ex-mulher: De au au. ☺
[21:44, 21/8/2017] : Parabéns!

[21:46, 21/8/2017] Ex-marido: Pela previsão meteorológica, aqui vai fazer frio até 27.08. Hoje o frio foi cruel . Agora está 18.

[21:47, 21/8/2017] Ex-mulher: 18 é muito gostoso. Eu querendo um frio. Aqui demais calor. Demais.

[21:47, 21/8/2017] Ex-marido: Vai fazer 14 de madrugada.

[22:02, 21/8/2017] Ex-mulher: Bom demais pra dormir. 😘  Vou descansar. Hoje teve eclipse.  To morta. 😪 beijinho boa noite.

[22:03, 21/8/2017] Ex-marido: 😘 : Boa noite.

[08:55, 22/8/2017] Ex-marido: Coluna | Democracia sem povo; por Eliane Brum https://brasil.elpais.com/brasil/2017/08/21/opinion/1503324298_467830.html?id_externo_rsoc=whatsapp

[10:27, 22/8/2017] Ex-mulher: Para pensar. Equivale a alcançar metas a qualquer preço ou manipular, omitir ou ressaltar dados e necessidades. Ai ai… Estou filosófica. http://www.revistapazes.com/uma-pessoa-ruim-nunca-sera-um-bom-profissional/

[11:01, 22/8/2017] Ex-mulher: Quando já não é preciso sequer manter as aparências se alcançou um outro nível de perversão. Gostei.

[11:08, 22/8/2017] Ex-marido: O despudor do poder.

[11:08, 22/8/2017] Ex-mulher: Isso. terminei de ler agora. Boa reflexão.

[11:10, 22/8/2017] Ex-marido: O duro é saber que 99% das pessoas não têm acesso a esse tipo de leitura e dos que têm, 80% não entende.

[11:14, 22/8/2017] Ex-mulher: a questão é que a falta de pudor está enraizada na sociedade. Quando todo mundo faz o que quer, do jeito que quer, sem se importar com o outro e NEM com a opinião do outro, é isso que dá.

[11:14, 22/8/2017] Ex-marido: Assim, sobra 2% de pessoas que entenderão isso. E desses 2%, 90% faz parte da elite despudorada. Ou seja, palavras ao vento, ou como disse Bob Dylan,


[11:17, 22/8/2017] Ex-marido: Esse despudoramento da sociedade, segundo Darcy Ribeiro, faz parte de um plano bem elaborado e bem executado de nossas elites, desde os tempos do Brasil colônia.

[11:19, 22/8/2017] Ex-mulher: a cultura do individualismo e da esperteza e o esgarçamento dos laços comunitários fazem a retroalimentação desse despudor.

[11:21, 22/8/2017] Ex-marido: Hoje vc acordou bem você mesma, mesmo.
😂

[11:25, 22/8/2017] Ex-mulher: Sim, dizendo coisa com coisa nenhuma.   😂😂😂😂😂😂 😂😂😂😂😂😂 😂😂😂😂😂😂 Muito sociológica.

[11:26, 22/8/2017] Ex-marido: Segundo o Bauman, um de seus prediletos autores, os laços comunitários foram substituídos pelos grupos sociais virtuais, onde vc gerencia seu próprio grupo e não fica sujeito à regras e aceitação do outro, exterminando, dessa forma, o contraditório, o debate de ideias, pois no seu grupo social virtual vc só aceita membros que têm o mesmo pensamento.

[11:27, 22/8/2017] Ex-mulher: Exatamente. Conversa-se sobre o mesmo com o mesmo. Tipo nós.  😂😂😂😂😂😂  😂😂😂😂😂😂

[11:27, 22/8/2017] Ex-marido: 😂😂😂😂😂😂

 

O tempo é o melhor remédio. Cura feridas, relativiza os acontecimentos. Permite que possamos refletir sobre o que nos acontece, elaborar sentimentos, aceitar perdas e receber o que a vida nos proporciona. O que fica, o que permanece, mesmo que com outro formato e significado, é o que importa. Mesmo que seja na forma de lembrança ou de vida que segue. Bom é o tempo vivido que leva à sabedoria. Bom, simplesmente, viver.

O segundo susto

Saí no meio do expediente de trabalho para ir à consulta com o ortopedista. Já fora bem cedo “marcar a vez” para não perder horas preciosas na sala de espera.

Cheguei esbaforida, suada e na expectativa de não ter perdido a consulta. Não tinha. Deu tempo de olhar a revista antiga com fotos de uma ruivinha linda, atriz da Globo, “alguma coisa” Rui Barbosa.

Entrei no consultório com uma pasta de exames e cumprimentei o médico. Antes que ele perguntasse, disse que fazia acompanhamento com médica de família que me recomendara procurar um ortopedista para verificar as dores nas articulações dos meus pés e das mãos.

O médico pegou os exames, colocou ao lado e apertou uma campainha. Enquanto isso, eu explicava que ali estavam meus exames mais recentes.

A secretária entrou e ele se despediu de mim, dizendo que pegasse as requisições para novos exames com a atendente. 

Ããããã! Acabou? Pior que transa de codorna! Depois desta proto-consulta the flash, saí meio aparvalhada do consultório e me sentei para continuar a ler a reportagem que havia largado no minuto anterior. Isto mesmo, um minuto para o médico me informar que iria pedir vários exames, muitos dos quais já havia entregue para ele.

Não tive alento para argumentar, nem reclamar. Voltei para o lugar da minha insignificância, de onde não deveria ter saído.

Este foi o segundo susto de hoje . O primeiro foi very hard. Aconteceu durante troca de mensagens pelo WhatsApp com uma pessoa com quem tive um envolvimento erótico-afetivo. Um amante que entrou na minha vida de uma forma muito peculiar. Mantemos ainda contato eventual, mas o conteúdo de nossas conversas extrapolam o caminho reservado aos amigos e percorrem, muitas vezes, as veredas dos amantes.

Mesmo agora, depois do susto, sorrio ternamente ao lembrar como ele me fez muito, mas muito feliz com seu jeito de menino safado. Por tempo nem tão curto, nem tão morno, como acontece nas paixões de inverno.

Vamos ao primeiro susto.

Depois de alguns ensaios de déjà vu (que me fizeram  crer em possibilidades futuras),  meu amigo/ex-amante relatava para mim questões que está vivendo no seu relacionamento atual. De repente, perguntei: você tem feito sexo com outras pessoas além da sua companheira? Ele respondeu: “Sim”.

A resposta simples e objetiva foi como um soco no estômago. Deu-me um aperto no peito, uma tristeza repentina, como se alguma coisa desmoronasse dentro de mim. Chorava sem derramar lágrima alguma. Um sentimento de perda, de pesar. A confirmação de que o meu tempo com ele passou. Acabou, de fato.

O que realmente me espanta é a minha capacidade de me surpreender com o óbvio. Não é que não soubesse que as consultas por meio de planos de saúde são despersonalizadas. Não é que não soubesse que a fila anda, que um ser infiel é sempre infiel.

Então porque fiquei assim tão arrasada, tão… (nem achei palavra para definir)?

Porque a palavra e a ação dão concretude ao que não se viu, ao que  apenas se pressentiu. Porque tudo o que já foi, pode ser vivido de forma diferente. Por mais que a possibilidade seja mínima.

A possibilidade no devir é que me faz acreditar no não determinismo do óbvio.

Além de me sentir uma mulher especial. Aliás, todo mundo sente-se especial, quer ser tratado como especial, ter vivido algo especial.

Não é bem assim, por certo.

Para o médico, nem pessoa sou; nosso contato se limita a $$$: quanto menor o tempo gasto comigo, maior sua produtividade, maior seu ganho.

Para o amante… não posso dizer o que sou, o que fui. Só ele sabe o que significa cada mulher que passa por sua vida. Ele carrega seu fardo e seu enfado de ser o que é.

Importa-me o que nosso encontro representou para mim. O prazer vivido, as lembranças que ficaram, as histórias para contar. É o que sinto, o que mantenho comigo, o que me faz sorrir.

Recuso-me a me considerar mais uma. Jamais fui. Jamais serei.

Mas a possibilidade requer um tempo que não disponho. O óbvio, mais uma vez, venceu.